::GÊNEROS


A pintura de gênero (ou género) desenvolveu-se a meio do florescimento do Barroco na Europa Católica (século XVII) nos Países Baixos, sobretudo nos Países Baixos do Norte (a porção que hoje corresponde à Holanda). Trata-se de um estilo sóbrio, realista, comprometido com a descrição de cenas rotineiras, temas da vida diária como homens dedicados ao seu ofício, mulheres cuidando dos afazeres domésticos, ou até mesmo paisagens. Nasce então a pintura de genre (ou petit genre) como uma resposta nacionalista, glorificadora da cultura holandesa, ao processo de libertação dos Países Baixos da dominação Espanhola.

A Pintura Holandesa
O século XVII foi o grande séeculo da pintura holandesa. Dentre os diversos artistas do período os que mais se destacaram foram: Rembrandt, Willen Kalf, Adrien van Ostale, Gerard Terborch, Albert Cuyp, Jacob van Ruisdael, Jan Steen, Pieter de Hooch, Vermeer, Willem van de Velde e Meindert Hobbema. Apesar da qualidade e abundância da arte produzida neste século, houve um grande declínio com a entrada do século XVIII e se estendeu até o século XIX, sendo revertida com a chegada do gênio impressionista, Vincent Van Gogh, no final do século XIX, e as pinturas abstratas de Piet Mondrian no século XX.
Antes do surgimento da Holanda como uma nação, existia pouca distinção entra a arte dos Países Baixos do Norte e o Sul (arte flamenga). Durante a Idade Média a arte holandesa foi dominada pela influência de seus vizinhos mais fortes, Alemanha e França. Os artistas do século XV eram patronados e recebiam o suporte dos Duque de Burgundy, cuja corte residia em Dijon. A arte era então voltada a motivos religiosos, sendo que vários dos artistas produziam peças para altares e outras pinturas religiosas no estilo realista.
A Renassença italiana começou a influenciar os Países Baixos do Norte no início do século XVI e se torna evidente nos trabalhos de jan Mostaert (1475 - 1555/56) e Cornelis Engelbrechtsen (1468 - 1533). Jan Van Scorel (1495 - 1562) foi o primeiro artista a viajar constantemente à Itália e assimilou com sucesso alguns elemetos italianos ao seu estilo. Dentre os seus pupilos encontra-se Maerten van Heemskerck (1498 - 1574), um dos maiores representantes do Maneirismo, que tornou-se o estilo predominante na Holanda do século XVI. O Maneirismo copia o estilo das pinturas italianas, enquanto tenta deliberadamente quebrar com as regras clássicas. Buscava atingir a discordância em oposição à harmonia, e tentava criar novos efeitos nas pinturas. Haarlem e Utrecht tornaram-se os maiores centros de pintura Maneirista, nos Países Baixos do Norte.
A luta pela independência e a exaltação nacionalista contribuirão fortemente para construir a natureza da arte holandesa, no século XVII. Os temas religiosos, históricos ou mitológicos não tinham mais apelo algum para os protestantes holandeses. Buscavam agora temas que exprimissem o orgulho pela nação. Esta auto-congratulação expressou-se através das paisagens, vistas das cidades, pinturas navais (a Holanda torna-se a potência naval do século XVII), e pinturas que glorificam a sua cultura burguesa, tais como retratos, pinturas de gênero e naturezas mortas. A Holanda não sofria influências estrangeiras, o que significa, que a arte que se desenvolveu foi original tanto nos temas quanto no estilo. A arte deixou de ser exclusividade dos mecenas, nobres ou religiosos, e passou a ser artigo da classe média em expansão. Não existiam pois grandes patrões que ditassem a estética artística. As pinturas eram raramente comissionadas, em sua grande parte eram vendidas assim como qualquer outra mercadoria.

Características
As pinturas de gênero holandesas, do século XVII, caracterizam-se pela riqueza em detalhes, precisão e apuro técnico, numa tentativa de representar tudo aquilo que o olho humano é capaz de captar, de tal forma a dar à imagem um apecto semelhante à vida. Em meio a estas mudanças do ponto de vista trazidas pelo processo de independência, surge a idéia de Kepler de definição da pintura, tomando por base a definição do olho, como formativa da imagem retiniana não-linear. Define o olho humano como um produtor mecânico de pinturas, desta forma, atrela o processo de pintar ao processo de ver, cria-se uma dialética entre a natureza e a arte, o que caracteriza a pintura do norte holandês.
Fora das esferas de influência dos grandes centros, desenvolve-se na Holanda uma pintura que se distancia da exuberância barroca, dos temas nobres e dos padrões de estética que orientam a arte desenvolvida na Itália, por exemplo. A busca pela representação do ambiente em que vive o povo holandês é constante. Os artistas se preocupam em representar, com o máximo de realismo, a perspectiva, as cores vivas dos objetos e a iluminação (ou falta da mesmo) nos hambientes. Para tanto, o artista faz uso de seu apuro técnico e, algumas vezes, de ferramentas, como a câmera obscura, que foi utilizada exaustivamente por Vermeer.
Surge nessa época o questinamento: estava sendo produzido arte, ou uma mera representação da realidade? O mesmo problema suscitado pela fotografia, que não se trata de um conflito entre arte e natureza, mas entre os diferentes modos de produção pictórica. Como o ver, o conhecer e o pintar se interagem levando à formação de pinturas mentais ou visuais? E.H. Gombrich tentou fundamentar a representação pictórica ocidental na natureza da percepção humana. Mas não exite, provavelmente, nenhum artista que tenha meditado tão contínua e profundamente a cerca destas questões, quanto o fez Leonardo da Vinci.
Quem quer que perca a vista, perde a bela visão do mundo e é como uma pessoa encerrada viva num túmulo, onde possa movimentar-se e viver. Ora, já notaste que o olho abarca as belezas de todo o mundo? Ele é o senhor da astronomia, faz a cosmografia, aconselha e corrige todas as artes humanas, leva os homens a diferentes partes do mundo, é o príncipe da matemática, suas ciências são exatíssimas, ele mediu as alturas e as dimensões das estrelas, descobriu os elementos e suas localizações. Previu acontecimentos futuros pela observação do curso das estrelas, criou a arquitetura, a perspectiva e a divina pintura. (Leonardo da Vinci, Treatise on Painting)
A mente do pintor deve ser como um espelho que se transforma na cor da coisa que lhe serve de objeto e é preenchido com tantas lembranças quantas são as coisas colocadas diante dele. Assim, pintor, sabe que não pode ser bom se não fores um mestre versátil na representação, por via de tua arte, de todos os tipos de formas que a natureza produz – que não saberás o que fazer, caso não as vejas nem as representes em tua mente. (Leonardo da Vinci, Treatise on Painting)
O argumento aqui compõem-se de três partes: primeiro, a mente não é apenas como um espelho mas, colorida pelos objetos que ela reflete, é realmente transformada num espelho; segundo, a imagem assim produzida pela natureza é não-seletiva – cada forma produzida pela natureza é espelhada, e por isso o homem não tem nenhum privilégio; finalmente, em sua frase conclusiva, Leonardo distingue claramente entre a representação espelhada na mente e a visão do próprio mundo. Nessa concepção de pintura, o espelho é o senhor ou guia, e Leonardo nesse espírito, aconselha o artista a confrontar sua arte com a natureza espelhada. (...) Nessa visão, uma pintura revela-se a si mesma para a representação de aparências como a perspectiva atmosférica – o fato perceptivo de que os contornos parecem suavizados, as formas arredondadas a certa distância de nossos olhos – ou o espa¸co recurvado. Mas, se a pintura toma o lugar do olho, então o obserador não está em parte alguma. Embora fascinado pelas aparências, Leonardo teme entregar-se a tais exigências de absorção total e receia o sacrifício das escolhas humanas racionais que essa noção da pintura supões. (Svetlana Alpers, A Arte de Descrever)

Referências
Wikipédia, a enciclopédia livre
Bibliográficas
LICHTENSTEIN, Jacqueline; A pintura - textos essenciais; São Paulo: Editora 34, 14 volumes; 2004;
HARRISON, Hazel; Técnicas de desenho e pintura; São Paulo: Editora Cia dos Livros, 1994;
Artigo do professor Jones, intitulado “A extração de dentes em Paris no século XVIII”.


 

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